O Tietê, por Fausto Nogueira

O Tietê passou a ser considerado o curso d’água que, melhor do que qualquer outro monumento, representava o espírito da capital dos paulistas, mesmo sendo o curso preferencial de escoamento dos esgotos urbanos.

"Para contar sua história, é preciso lembrar inicialmente da evolução de São Paulo", como o diz o historiador Fausto Henrique Gomes Nogueira. São Paulo e o Tietê estão intimamente ligados, pela história, pela geografia, pela cultura, e também pelas dificuldades. Símbolo da cidade, trata-se de um personagem fundamental durante os períodos econômico das bandeiras, monções, da cafeicultura e da industrialização.

Durante muitos anos, o rio foi a única via de acesso ao interior da província de São Paulo e, embora não navegável em alguns trechos, se tornou o caminho mais rápido para se atingir o Estado do Mato Grosso. Além de sua importância histórica, possui considerável significado econômico, ligado principalmente à produção de energia hidroelétrica imprescindível para o maior parque industrial da América do Sul. Também foi um local de lazer e entretenimento, porém, desrespeitado pela cidade, se transformou em “esgoto a céu aberto”.

São Paulo foi fundada em 25 de janeiro de 1554, quando se ergueu o colégio dos jesuítas em local alto - uma colina com visão abrangente e excelente para a segurança - que deu origem ao povoado de São Paulo de Piratininga, cercado pelos rios Tamanduateí e Anhangabaú, e próximo ao rio "Anhembi" que “corre de costas para o mar”.

Até o século XVII, o Tietê era chamado de Anhembi. Historiadores e homens da época consideram que o nome é derivado de uma ave muito comum na região, as anhumas, significando rio das Anhumas. Com o passar do tempo, percebe-se que o Tietê é um local de incursão, tendo em vista a pobreza da capitania, pouco ligada à metrópole. O sertão parece fornecer a possibilidade de riqueza. O rio era misterioso, pois corria terra à dentro. Inicia-se o Ciclo das Monções.

As monções eram expedições fluviais povoadoras e comerciais que partiam do porto de Araritaguaba, na cidade paulista de Porto Feliz, região de Sorocaba. A expressão significa vento favorável à navegação. A descoberta das minas nas cercanias de Cuiabá iniciou o período de grande euforia das Monções. Nessa época, o Tietê foi o caminho dos aventureiros que, em busca do sonho dourado, fundavam povoados à sua margem. Na manhã da partida era rezada uma missa para o sucesso da missão. Todos iam ao porto onde as embarcações recebiam a benção.

A monção partia com salvas de mosquetes e aclamação da multidão que observava as margens do rio. As viagens eram perigosas e nos rios, cheios de obstáculos, costumavam acontecer naufrágios, doenças, ataques de índios. As comitivas de canoas partiam com dezenas e até centenas delas saíam de Araritaguaba (ou Porto Feliz).

A imaginação supersticiosa dos caboclos mamelucos envolvia a existência de lendas sobre o rio Tietê com seus seres sobrenaturais como o “Monstro de Pirataca”, representado por uma enorme serpente que habitava as profundezas escuras à jusante no salto de Avanhandava e que devorava homens com apetite voraz. Havia também a “Canoa fantasma” que aparecia soturnamente nas manhãs nevoentas com sua tétrica tripulação ora subindo ou descendo o rio e desaparecendo misteriosamente.

O rio foi importante até o século XIX quando homens preferem as tropas de mulas, menos perigosas. No final do século XIX e início do XX desenvolveu-se a prática esportiva e, embora a poluição já fosse um problema no Tietê nas primeiras décadas do século XX, ainda não havia comprometido tão grave.


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